sexta-feira, 3 de junho de 2011

"Desenhador de tirinhas"

De volta ao Blog Obrando Idéias.

Dessa vez, inspirado no movimento #SOSUESPI, campanha idealizada e construída por professores e estudantes em defesa da Universidade Estadual do Piauí, assumo agora esse blog como um “desenhador de tirinhas”. Normalmente chamamos de cartunista, mas, como não sei se isso é de momento ou será algo pra mais tempo, prefiro não ter a prepotência de me designar como tal.


Então, agora como “desenhador de tirinhas”, acabo de lançar a série “UESPI - Universidade Esquecida do Piauí”.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Deserto verde ameaça terras piauienses

* Matéria que fiz para o jornal Tribuna do Piauí e publicada no site da Caros Amigos

A promessa de desenvolvimento com a instalação da Suzano Papel e Celulose no Piauí contradiz as reais necessidades da população


Não é possível enxergar no horizonte onde termina a plantação de eucalipto. A fazenda Calumbra, município de Elesbão Veloso, 159 km de Teresina, capital do Piauí, abriga nove mil hectares de extensos corredores de pés de eucalipto, o chamado "Projeto Florestal" da Empresa Suzano Papel e Celulose. Apenas algumas áreas das Matas dos Cocais, protegidas por lei ambiental, devido ao extrativismo do pequi, buriti, babaçu e carnaúba, foram preservadas.

Contraste com a realidade

Enquanto 41% da população piauiense ainda é afetada pela fome, de acordo com pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Suzano, ao todo, já possui 160 mil hectares do território do Piauí, o mesmo que 1.600 km², o que corresponde a 1,57% de terras piauienses transformadas em “florestas” de eucalipto. O eucalipto não serve de alimento nem para o ser humano, nem para os animais. As plantações formam um verdadeiro deserto verde, utilizado para a produção de toneladas de papel e celulose, voltados, sobretudo, ao mercado internacional.

Além disso, de acordo com estudo realizado pelo Departamento de Ciências Naturais – DCN – da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB – árvores de crescimento acelerado, como o eucalipto, dependem de grande quantidade de água para se desenvolver e por isso provocam o secamento do solo, diminuem os mananciais e aumentam a possibilidade de desertificação dessas regiões. Sendo assim, a instalação da Suzano mais uma vez contradiz as reais necessidades da população do Piauí, já que o estado sofre, praticamente todos os anos, com os efeitos da estiagem. Só no início deste ano, mais de 155 municípios declararam estado de emergência por causa da seca, alguns deles tiveram a safra comprometida em 90% por falta de água.

Impactos ambientais

Outro grande problema está relacionado às várias trilhas de devastação que separam os módulos da plantação do eucalipto. O apodrecimento dessa madeira oriunda do desmatamento, exposta no campo, produz metano, um gás tóxico, perigoso ao homem e ao meio ambiente, além de degradar o solo. Porém, a empresa se nega a encontrar um destino menos poluente para essa madeira.

Essa é uma das exigências apresentadas pela Rede Ambiental do Piauí (REAPI), que vem tentando negociar com a Suzano desde que ela chegou ao estado. Na tentativa de evitar grandes impactos ao meio ambiente e à sociedade, diante do descaso do Governo do Estado, os ambientalistas abriram um campo de diálogo, diretamente com os representantes da empresa, com a intenção de convencê-los a cumprir 11 pontos de pauta que amenizassem o cenário de devastação.

Quem deveria cumprir esse papel era o Governo do Estado, e não as Organizações Não-Governamentais. Entretanto, o governo de Wellington Dias (PT) e Wilson Martins (PSB) não foi só omisso, como abriu as portas do estado e ofereceu todos os benefícios, como a isenção de impostos, para que a Suzano explorasse, da forma como quisesse, os “recursos” naturais e humanos do Piauí.

“Tivemos três reuniões e colocamos 11 pautas de reivindicações. Acontece que não fechamos esse acordo porque a Suzano ainda não quis negociar dois importantes itens, quanto ao destino dado à madeira do desmatamento e a análise periódica da água do Rio Parnaíba que eles utilizarão no projeto. Essa análise seria feita pela REAPI e mandada para o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, com despesas pagas pela empresa. Nós, da REAPI, não vamos abrir mão desses itens, e se eles não cumprirem apelaremos para a Justiça”, enfatiza Tânia Martins, representante da rede.

Com relação à madeira, a Suzano alega que está com dificuldades para encontrar quem a compre. Quanto à água, eles argumentam que não podem negociar ainda, porque ela será consumida apenas quando for instalada a indústria, em 2014. Essa análise constante da água se faz necessária, já que as fábricas de celulose promovem um uso abusivo de água potável, além de lançar resíduos nos rios.

Os detritos lançados nos rios contribuem para a contaminação do lençol freático. Ocorre também a contaminação do solo pelo uso intensivo de agrotóxicos, que se transfere para córregos, riachos e rios. De acordo com relatos de trabalhadores rurais do município de Elesbão Veloso, que prestam serviços terceirizados para a empresa, alguns animais já morreram com o veneno colocado junto com a aplicação do adubo.

Sem pensar no futuro

Mesmo com todos esses impactos, a população que mora próxima às grandes plantações de eucalipto estão contentes com a chegada da Suzano Papel e Celulose. Um jovem, de nome Fábio, do assentamento Bebedouro, do município de Elesbão Veloso, todos os anos viajava a São Paulo para trabalhar no corte de cana, na época da colheita. Além de ter que se afastar da família, o pagamento era feito de acordo com a produtividade de cada trabalhador.

Agora Fábio está satisfeito com o novo trabalho. Ele presta serviço à Suzano, através da J.F. Sousa Serviços. No final do mês recebe um salário mínimo, o que ainda não é o suficiente, e trabalha perto de casa, das sete da manhã às quatro da tarde, fazendo pique, trabalho braçal pesado de demarcação das áreas a serem desmatadas.

Assim como Fábio, todos os trabalhadores contratados são terceirizados. Dessa forma não possuem vínculo direto com a empresa, ela não precisa se preocupar com a garantia dos direitos trabalhistas e os trabalhadores não têm nenhuma perspectiva de contratação futura, após a finalização da fase de desmatamento, adubação e plantio, já que a colheita é feita com o uso de máquinas.

Ainda assim, as famílias, tanto do assentamento Bebedouro quanto do Caraíba, deixam bem claro que elas não estão muito preocupadas com o futuro, pois antes não possuíam nenhuma fonte de renda, a não ser o que conseguiam através do extrativismo. Pensam apenas no agora, na sobrevivência do dia-a-dia.

Devido à inexistência de uma política realmente comprometida com a população do campo, essas famílias vêem a instalação dessas empresas como uma alternativa, sem qualquer preocupação com o impacto da monocultura e com as gerações futuras.

Isso se reflete na fala do presidente da Associação do Assentamento Caraíba, Antônio Avelino. “Já tem bastante gente daqui empregada, são três assentamentos, quase todo mundo trabalhando. Tem tudo, é direitim, o negócio é bem-feito, está todo mundo gostando. Muita gente disse que era ruim pra gente, porque as árvores que tem perto iam tudo embora, mas nem isso eu acredito que seja ruim. Eles ainda fizeram a proposta de alugar as terras por sete anos, arrendar 50% da área, 608 hectares. Eles fazem todo o serviço, quando fizerem a colheita pagam todas as contas, aí o lucro é dividido”, relata.

A Suzano pretende arrendar 50% das terras dos assentados, sob a alegação de que os trabalhadores rurais não gostam de trabalhar com a agricultura familiar e apenas querem saber do extrativismo. Entretanto, as famílias da região plantam arroz, feijão, mandioca e milho para a subsistência. Só não ampliam a produção pela falta da aplicação de políticas voltadas para a agricultura familiar, que deveriam ser desenvolvidas pelo Governo do Estado.

Por isso Antônio Avelino considera que a proposta feita pela Suzano poderá ser um bom negócio, mesmo sem a certeza de quais substâncias são utilizadas para adubar o solo, e se aquela terra, depois de sete anos sendo utilizada para o plantio de eucalipto, não estará improdutiva. “Eu num sei se mais tarde vai ter algum problema. Melhor do que ficar parado. Sete anos eles tiram a primeira safra, depois vão plantar de novo. A gente num pensa pro futuro, só no presente”, destaca.

Falsa promessa

Por outro lado, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Elesbão Veloso, Sebastião do Nascimento, explica que isso também acontece porque ainda não foi possível a população sentir os impactos ambientais e sociais com a instalação da Suzano. “O campo de plantação é muito bonito, mas só com o tempo é que a gente vai sentir. Algum impacto já dá pra sentir agora. Por conta do desmatamento, os bichos não estão mais ocupando aquela área. Eles estão comprando tudo em volta o que for bom pra eles. Eles tão deixando umas reservas de mata nativa, mas fora da reserva eles tão levando tudo”, relata.

De acordo com o representante do sindicato, nem Suzano nem o governo cumpriram com as promessas de desenvolvimento. “Eles prometeram que iam voltar aqui para mostrar o resultado, mas ainda hoje a gente aguarda. Hoje a gente se pergunta e não tem resposta. A promessa da empregabilidade não foi garantida. Eu não queria ouvir só as promessas, mas a resposta em cima das dúvidas. Trabalhar é um direito de cada um de nós. Alguns trabalhadores já foram dispensados, os que esperaram perderam tempo, todos ficaram com as mãos na cabeça. Hoje está todo mundo subindo e descendo, sem ter um lugar certo para trabalhar”.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Perdido nas horas marcadas


É impressionante como um dia é pouco e não dá tempo de fazer metade das coisas que quero. Minha manhã voa como uma andorinha, minhas tardes são ocupadas como uma formiga operária e minhas noites são cansadas como um bicho preguiça.

Hoje vou fazer só isso aqui, mas ainda é cedo, vou antes só dá uma olhadinha rápida nisso aqui. Só falta meia hora pra eu ter que sair, não dá mais tempo para fazer isso. Aaah! Então eu vou fazer isso aqui que é mais rápido, aí amanhã eu começo e termino essa outra coisa. Eita! Já estou atrasado, não dá tempo de almoçar. Vou banhar aqui ligerim e sair correndo, quando eu chegar termino de fazer. Preciso fazer alguma coisa pra jantar, hoje eu nem almocei. Mas antes vou descansar um pouquim. Deixa eu ver se está passando alguma coisa aqui na televisão. Diaxo, só tem besteira. Vou procurar alguma coisa pra comer. Agora vou terminar de fazer aquilo, mas antes é melhor tommar um banho pra ficar mais relaxado. Eita porra, já ta ficando tarde, preciso dormir sedo pra amanhã de manhã acordar disposto pra fazer aquela outra coisa. Hoje vou fazer só isso aqui, mas ainda é cedo, vou antes só dá uma olhadinha rápida nisso aqui...


Assim segue os meus dias, acaba e parece que não fiz nada.


Minha vida se baseia num relógio e meu tempo se perde nas horas marcadas. Tic tac tic tac tic tac é o som da minha vida passando.

terça-feira, 20 de abril de 2010


Quero ir para as ruas

Desabafar o meu grito

Deixar minha voz escapar

E ecoar pelos ares

Deixar de ser só pensamento

E não ser mais tão sozinha

Porque ela quer ser coro

Não quer mais ser só minha


Em busca de novos destinos

Meus pés querem marchar

Sentir o chão da terra

E o asfalto quente que lhe veste


Com punhos erguidos

Minhas mãos querem vibrar no ar

Onde soam palavras de ordem

Querem agitar bandeiras

Juntar mãos com mãos

E sentir com força o aperto de cada uma


Minha pele quer se vestir de povo

Conhecer o suor do trabalho

Sentir a dor do outro

Arrepiar-se com alegria

Ao ver na luta uma esperança


E minha mente quer descanso

Quer um dia dormir sossegada

Quando a utopia do amanhã não for mais um sonho

E a realidade de hoje for só mais um pesadelo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Assistencialismo forçado


Toda vez que compro crédito de celular na Big Ben, uma grande rede nacional de farmácia, a vendedora me pergunta se eu não gostaria de deixar o meu troco para ajudar as crianças com câncer. Parece até maldade, toda vez eu nego, chega a ser constrangedor – “poxa eu não ajudei as crianças com câncer, que tipo de pessoa sou eu?” – mas eu não vou cair nessa conversinha fiada.

Não estou dizendo que eles não encaminham a doação. Realmente acredito que eles fazem isso. Mas, se a Big Ben quer fazer “boa ação”, por que eles não tiram o dinheiro do próprio bolso deles? Já não basta explorarem a população super-faturando o preço dos remédios, cobrando altas taxas de lucro, muitas vezes mais de 400% acima do preço original?


Mesmo quando essas empresas querem posar de bom samaritano, a sede de lucro delas é tão insaciável que elas preferem aumentar a exploração contra o consumidor, do que tirar uma porcentagem mínima do seu lucro anual pra poder praticar a bendita “boa ação”. Que diga a bondosa rede globo, levando uma vez por ano esperança para milhares de crianças, enquanto uma vez por mês paga um salário próximo a cinco milhões pra um apresentador besta ficar falando besteira pra gente no dia de domingo.

Eu sei que ninguém é obrigado a doar, caso contrário não seria doação, mas quem se sente bem em negar ajuda as crianças, pobres, deficientes ou com câncer?

- Vamos ajudar as crianças com câncer?
- Não, é que... (não posso nem mentir dizendo que não tenho trocado, a mulher já está com meu troco na mão)


Por esse ponto de vista, é pior do que dizer não. Eu vou arrancar da mão da mulher o dinheiro que poderia ser para a doação. Que feio, não? Eu bem que poderia ser uma pessoa mais solidária.

Entretanto, existem diferenças entre assistencialismo e solidariedade. Mesmo reconhecendo que o primeiro amenize certas dificuldades a curto prazo, não podemos confundir um com o outro. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

No texto “Valores de um Lutador do Povo”, Ademar Bogo explica isso bem melhor do que eu. “A solidariedade representa atitudes completamente inversas a colaboração. Deve ser a ação CONSCIENTE de pessoas da mesma classe na busca de alternativas CONJUNTAS para se buscar soluções DEFINITIVAS e para TODOS”.

Viu como faz diferença?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O sentido da vida

Mainha querendo entender a vida das muriçocas:
Que sentido faz comer, comer, comer pra depois morrer?



Pelo menos comer garante a sobrevivência da espécie

sábado, 28 de novembro de 2009

O mundo muda a gente, a gente muda o mundo

Nunca cresci, continuo imaturo. Tudo é sempre tão novo e desconhecido que parece impossível de aprender. Insegurança, incerteza, desconfiança, indecisão, tudo isso, intensamente me compõe. Não tenho objetivos específicos; não tenho dons nem hobies; não sei dizer o que gosto, apenas faço, mas faço tão despercebido, que não me lembro na hora de dizer; não sei se sei e nem sei se não sei de alguma coisa. Aos 20 anos ainda não sei o que ser quando crescer, talvez seja por isso que nunca cresci, talvez eu retarde inconsciente a minha evolução, ou talvez eu seja retardado mental por natureza. É, eu sou assim, confuso. Vivo sempre numa profunda reflexão do meu próprio pensamento. Nunca solucionei a questão do meu ser ou não ser. As vezes me preocupo de mais com a opinião dos outros e as vezes não estou nem aí pra o que dizem. Tento tanto ser eu, que as vezes deixo de ser pra parecer que sou. É perturbador ser assim, preferia não ser, mas gosto do que sou.


Passaram-se apenas dois anos da época em que escrevi isso, mas nesse pouco tempo, passei por um grandioso processo de evolução da minha consciência.

Lendo esse texto percebo o quanto mudei o que eu era comparado ao que sou. Hoje tenho objetivos, sou consciente do que sou e me vejo como ser capaz de construir a minha própria história. Sei que sou capaz de mudar os rumos do que me foi predestinado pelo sistema do capital, mesmo com o fantasma do conformismo me perseguindo rotineiramente dizendo: “você um dia vai cair na real”.

O problema é que já cai numa real e essa realidade me mostrou que eu preciso me erguer e lutar contra a ordem. O Movimento Estudantil me despertou para essa luta, me ensinou o que a instituição de ensino nunca foi capaz de me ensinar, fez com que eu me reconhecesse enquanto povo, me fez reaprender a sentir a dor do outro, me fez acreditar que é possível mudar o impossível mesmo que eu não veja essa mudança acontecer e passei a acreditar mais no indivíduo como parte de um coletivo e de desacreditar na capacidade do individualismo mudar o que de costume é considerado normal.

Sei que ainda sou pouco e sei pouco, mas faço o pouco que me cabe.


"É tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar” (Thiago de Mello).

sábado, 21 de novembro de 2009

“Ler e escrever são formas de subversão”

Depois de ter abandonado o meu blog por algum tempo, resolvi voltar a ativa. Para reiniciar esse trabalho parado que voltou a andar , resolvi resgatar uma matéria que fiz em julho deste ano sobre os cursos acompanhados pelo MST através de verba do PRONERA.

“Ocupar terra não é só eu ter um pedaço de chão é ter as condições dignas de se viver. É ter escola. Mas que escola? A gente não quer só um espaço onde possa ter uma sala de aula”. Com um forte sotaque pernambucano, Ana Emília, acompanhante pedagógica do Movimento Sem Terra (MST), contesta o atual modelo educacional das escolas e universidades e explica que o movimento vem construindo há 25 anos uma política de educação no campo.

Os cursos, acompanhados pelo MST, através do PRONERA (Programa Nacional de Educação para Reforma Agrária), se adequam metodologicamente a realidade do homem do campo. Como o primeiro curso de Licenciatura em Artes, com abrangência nacional, desenvolvido pelo movimento, em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ele é considerado nacional porque participam estudantes do Brasil inteiro: Rio Grande Sul, do Paraná, Espírito Santo, São Paulo, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Alagoas e o Pará.

A segunda etapa desse curso está ocorrendo agora em Teresina e terá duração de dois meses. A primeira ocorreu entre março e abril do ano passado. Apesar do longo espaço de tempo entre um período e outro, a carga horária é a mesma da UFPI. A diferença é que a graduação se estrutura com base na pedagogia da alternância.

A pedagogia da alternância

Ana Emília explica que, para o trabalhador rural existe uma outra dinâmica que tem que ser vivenciada e tem que ser respeita. Por exemplo, dentro dos ciclos agrícolas, como é que você vai tirar o trabalhador da época do plantio, pra poder botar ele na escola? “Ou ele deixa de plantar ou ele deixa de estudar. Não da pra a gente ser tão: ‘Isto, isso, ou aquilo’. Daí a gente incorpora toda uma discussão dessa dialética, dessa compreensão maior. O trabalhador, o agricultor ele precisa trabalhar pra a gente ter o que comer, pra quem está na cidade também ter que comer. Mas, ele também precisa vivenciar a escola”.

O tempo escola


Portanto, a pedagogia da alternância passa por essa dimensão dos tempos, o tempo escola e o tempo comunidade. O primeiro, é o momento vivenciado, intenso, a partir dos módulos, correspondente a carga horária de um período. Os alunos assistem aulas de manhã e de tarde. A noite eles participam de um processo de organização interna. “Nas áreas de assentamento e acampamento estamos organizados a partir de núcleos de famílias, brigadas e regionais, dentro de um processo democrático, onde tem as representações e tudo. No curso a gente trás essa mesma dinâmica para ser vivenciada”, esclarece.

Nesse curso possuem seis núcleos. Em cada um deles, os estudantes tiram uma pessoa pra coordenar, outra para fazer relato dos debates dentro do núcleo, que é o processo de leitura e de estudo, e outras que vão participar das equipes que vão construir a gestão do curso. “Então, eles também são responsáveis pelo todo do curso, e esse é um processo de formação muito maior, que aí você não tem só a escolarização do saber, ler, escrever e aplicar a técnica. Eles passam a construir as dinâmicas, a coordenação do curso e a participar da gestão”, complementa.

O tempo comunidade


O tempo comunidade é para além de pensar no ciclo agrícola e do trabalho. Ele serve para o exercício da prática. Ana Emília explica que os alunos vão associar todo um processo de conhecimento. Os alunos levam diversos textos para ler, realizam intervenções dentro da comunidade e voltam com trabalhos de pesquisa, a partir dessas vivências.

“A gente sempre trabalha com essa relação, teoria e prática, teoria e prática permanente. A partir do olhar da realidade, eu detecto um problema. Quando eu tenho uma teoria que pode me ajudar a enxergá-lo, então posso voltar com outras possibilidades de leitura sobre o problema da minha comunidade”, argumenta.

O corte na educação

Segundo Ana Emília, a demanda de acampamentos e assentamentos é permanente, pois todo período tem mais gente mobilizada no Movimento Sem Terra. Só no Pernambuco, são mais de 40 mil famílias assentadas. “Se você tem esse número de famílias, quantos jovens, adultos, crianças, vão precisar vivenciar a profissionalização”?

Nesse embalo, Emília ainda questiona: por que do corte de 72% no orçamento do PRONERA? Por que o poder público se utiliza da burocracia para coibir a contratação de novos projetos? E responde em seguida: “Porque assim, cancelam um processo de formação contínuo da classe trabalhadora e, muito mais, do homem do campo”.

Devido a isso, no dia 8 de junho, o MST fez uma mobilização nacional. Foram feitas ocupações dentro dos INCRAS, tanto pelo corte, quanto pela pressão para a contratação dos projetos de novos cursos que já estão articulados. “Lá no Pernambuco a gente fez uma ocupação escola. Porque ocupar não é só o ato de chegar lá, sentar e tomar um prédio. Que debate a gente faz? Qual é a nossa pauta para com essa instituição? Então a gente foi lá, montou uma sala de aula, levou quadro, levou caderno, levou cadeira e discutiu essas questões”.

“Ler e escrever são formas de subversão”

“Uma vez saiu uma reportagem muito ácida dizendo: ‘Como é que gente da mão grossa quer ser doutor? ’. É negado o tempo todo à classe trabalhadora o direito de viver a educação no Brasil. É esse o embate que a gente sofre. Existe uma luta de classe imposta e é esse o nosso papel, superar essa relação”.

A pernambucana diz ainda, que a criminalização do MST afeta diretamente o campo educacional da base do movimento. “À classe trabalhadora, nunca foi dado o direito de escrever sua história, então ler e escrever é uma forma de subversão. E aí, arcar com o impacto disso, é muito forte. Fazer Reforma Agrária não é fácil”.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

De respeito


Na revistaria de dentro da UESPI, a Lorena, amiga do Cajuína, horrorizada, começou a observar os títulos dos filmes pornográficos: “Primas”, “Cunhadas”...

- Não tem nenhum com esposas, não? As pessoas não sentem prazer com as esposas? – questionou a estudante.

- Na verdade tem, “Troca de esposas” – respondeu o vendedor sacana.